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Ri-te Rita

que a vida não rima

Ri-te Rita

que a vida não rima

La Palissada

Se há história e estória que melhor descreve a humanidade é a da La Palissada.

 

Quando era miúda, sempre que ouvia alguém apontar o dedo a um pleonasmo chamando-o de "verdade de La Palisse", eu ficava a magicar que filósofo teria sido esse La Palisse que se tinha dado ao trabalho de enumerar verdades tão incontestáveis que até se tornavam motivo de gozo. Andava curiosa para ler o seu tratado e indignada por não lhe darem o devido valor. Ora, num mundo em que os homens não concordam com temas tão simples como o direito à liberdade, à opinião e até à vida, como tinha alguém o direito de ridicularizar quem teria encontrado verdades tão fundamentais que ninguém as punha em causa!

Qual não é o meu espanto, quando descubro que La Palisse não era um filósofo, nem um político, nem mesmo um charlatão. Era um nobre militar francês do século XV idolatrado como herói nacional e que inspirou aos seus soldados canções sobre a sua coragem. Cantavam os soldados "s'il n'était pas mort, Il ferait encore envie". Passam os séculos, o grafismo do francês altera-se, e a estrofe toma a seguinte forma "s'il n'était pas mort, Il serait encore en vie", que por ser tão absurda foi imortalizada numa canção satírica do século XVIII. Ora, como a bravura de um herói antigo não alimenta a alma de ninguém, mas a possibilidade de nos rirmos da idiotice dos outros alivia-nos o espírito, enquanto os anos e a memória esqueciam o herói La Palisse, surgiam as lapalissadas cruzando fronteiras de espaço e tempo até aos dias de hoje.

E enquanto sorrio com a ironia disto tudo, especulando sobre as correntes subterrâneas que movem a sociedade, dou por mim a pensar que se não fosse a idiotice ter-se colado à figura do grande herói francês, nunca tinha eu conhecido a sua história, tão longe de França que me encontro e tantos anos depois!