Coisas do dia
Tenho imensas coisas para fazer, mas a vontade é pouca, pouquíssima. Estou para aqui sentada à secretária à espera que a minha consciência me mande trabalhar ou a minha barriga me mande comer. Acabei de dar algum dinheiro para ajudar os moçambicanos. Claro que não lhes servirá de muito o meu dinheiro. Quando muito servirá para pagar ordenados e viagens de avião para avaliar situações. Rezo como quem já não sabe rezar para que tenham força de vontade e que a natureza os ajude a passar por mais esta provação. Custa-me cada vez mais não ter forma efectiva de ajudar as pessoas. Há uns anos atrás, numa altura em que a seca e a guerra estavam a matar gente, soube com estupefação de armazéns cheios de donativos que as instituições não tinham dinheiro para fazer embarcar para África. Desde essa altura tento dar dinheiro a quem está no terreno, mas continuo a achar que dar esse dinheiro serve mais para me aliviar a consciência do que para ajudar quem está a passar fome. Até porque a consciência está cada vez mais pesada. Cada vez que meto gasolina, cada vez que compro produtos importados, cada vez que consumo sem necessidade, a consciência pesa mais, e não há dinheiro que vá pagar o clima quente e árido, os fogos, a fome e os desastres naturais que por aí vêm se não invertermos este caminho de matar o planeta. Que os moçambicanos me perdoem, que os meus filhos e netos me perdoem, que não há dinheiro que eu possa pagar agora que lhes facilite a vida depois.