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Ri-te Rita

que a vida não rima

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Cemitérios

Tinha decidido escrever sobre cemitérios, mas a verdade é que já não estou muito com muita vontade. Mas como também tinha decidido escrever mais aqui no blog, e mais ao correr da pena (ou das teclas), para combater o esquecimento e desenferrujar os dedos, vou tentar ver se consigo descrever o que andou pela minha cabeça:

Faz umas semanas que fui a um funeral a uma terra pequena longe daqui. Embora já tenha pensado que tudo o que se relaciona com a morte seria algo que me horripilaria, com a idade vim a constatar que não é o caso. Na verdade, horripila-me que se trate a morte com tanta frieza, como se morrer fosse cada vez mais algo higiénico e isento de emoção. E estamos tão embrenhados neste nosso acelerado mundo novo, que até já aceleramos a decomposição, e voltamos ao pó em menos de meia hora. De certa forma fazem-me falta as carpideiras que nunca conheci, o luto de um mês e os velórios em casa das pessoas. Casa-se em casa alheia, fazem-se festas em casa alheia, aprende-se em casa alheia, curam-se as doenças em casa alheia, trabalha-se em casa alheia e há até quem faça filhos em casa alheia...Eu, pelo menos, gostava de morrer em casa própria e que as pessoas se viessem despedir de mim a minha casa. Mas voltando aos cemitérios, eu, mesmo sendo esta ateia com dúvidas não praticante de coisa alguma, sou do partido da Maria da Fonte, e acho que os mortos se deviam enterrar no sítio onde se reza. Ou então em qualquer outro lado. Mas não gosto destas cidades em pedra e mármore que nos grandes centros se chamam de cemitérios. Não gosto das regras de inscrição do nome e data apenso a uma foto, como se fosse só isso a nossa vida, um cartão de cidadão inscrito em mármore numa parede em que é preciso uma escada para lhe chegar ao topo. De certa forma gosto da ideia de haver jantares no Panteão, gostava que houvesse celebração de vida em cima da evidência da sua finitude. Por isso gosto de passear em cemitérios de terras pequenas, nos cimos dos montes, ao lado das igrejas, batidos pelo vento e pelo sol, com campas rasas ou jazigos que contam histórias. Como a do jazigo com o vestido de noiva pendurado, a da campa com a escultura de uma moto, a do poema escrito pela filha ou a da cerca em madeira colorida a rodear um pequeno jardim com vasos de flores, albuns de fotos e caixas de vidro com cartas escritas à mão. E gostava de ver mais fotos nas campas, não só a das pessoas com a aparência com que morreram, mas também as outras, de quando eram crianças, jovens e adultos, porque quando morre alguém velho, morre também alguém que já foi novo.

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