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Ri-te Rita

que a vida não rima

Ri-te Rita

que a vida não rima

Há quase um ano não escrevo

Não tenho por hábito transcrever para este espaço textos de autores. Mais do que o desábito, é coisa que não gosto. Mas gosto muito deste poema de Fernando Pessoa, e nos últimos anos vem-me, volta e meia, meia volta, à cabeça. Acho reconfortante achar que um poema que carpe as mágoas de se achar que antes é que achava bem, me diga mais do que a maioria dos poemas que achei dele. E tanta "acha" é devida ao frio que faz e às saudades de uma boa lareira.

 

Há quase um ano não escrevo.

Pesada, a meditação

Torna-me alguém que não devo

Interromper na atenção.

 

Tenho saudades de mim,

De quando, de alma alheada,

Eu era não ser assim,

E os versos vinham de nada.

 

Hoje penso quanto faço,

Escrevo sabendo o que digo...

Para quem desce do espaço

Este crepúsculo antigo?

 

Fernando Pessoa

Inércia climática

O Pai-Natal não me trouxe grande presente este ano. A COP25 falhou. Ai e tal, tal e coisa... uma esperançazinha aqui outra acoli, mas no global falhou. E está aí o Natal à porta. Por todo o lado vejo demasiados pai-natais e mãe-natais a comprarem o que não precisam para o oferecerem a quem não quer. Lixo à porta das lojas, lixo na rua, lixo em demasia. Depois vêem-me dizer para não me preocupar. Que a Greta isto e aquilo. Que é um problema para os chineses resolverem, que o Elon Musk e o Bil Gates já estão a trabalhar no assunto, e que já estão cansados de me ouvir. Mas parece que não. Nem o mundo se entende a resolver o assunto politicamente, nem as pessoas a resolverem-no no seu quotidiano. Falam, falam, falam, e dizem que é um assunto para os jovens resolverem daqui a 20 anos. E eu pergunto, se os jovens de hoje estão a ser educados por nós e se a educação se transmite pelo exemplo, que raio de exemplo estamos a dar? Como vão os jovens de hoje tornarem-se adultos de amanhã capazes de salvar o planeta se não os estamos a educar para isso. Dizem-me: olha a Greta. Eu respondo: olha os pais da Greta.

Convicções que mudam com a idade

Há 20 anos atrás se alguém me perguntasse como deviam ser escolhidos os magistrados em cargos determinantes para a nação eu diria que o sistema português era o melhor e mais isento e apontava como exemplo negativo os países em que estes cargos eram eleitos (porque os juízes tenderiam julgar em função da vontade do povo e não da vontade da lei e da verdade). Com a idade estou a questionar o que é isso da vontade da lei e mais ainda o que é isso da verdade, e vejo-me a defender que os juízes deviam ser eleitos. Autoritarismo por autoritarismo, prefiro o escolhido por mim e pelos meus concidadãos.

Corrida ao espaço

A Greta passou por cá. Para mim, que a sigo naquela coisa de miúdos que é o insta, foi apenas mais uma ou duas publicações da rapariga. Aliás, como não postou nenhuma foto de multidão pensei que nem a tinham ido receber até ler os comentaristas de esquerda e de direita na sua recorrente pega de caras desta vez por causa da miúda.

Se há assunto que me espanta ser partidarizado é a sustentabilidade do planeta. Achava natural que uns dissessem "há que aumentar o investimento público nas renováveis" e outros dissessem "há que criar incentivos fiscais às empresas verdes", mas só leio uns "a rapariga é Deus e por isso vamos venerá-la e deixar sua santidade trabalhar, enquanto ficamos de braços cruzados" e outros "a rapariga é uma palhacita e vamos denunciá-la para que ela não trabalhe, enquanto ficamos de braços cruzados". Gostava de ter lido propostas. NADA! Ou pelo menos nada que chame clicks e mais clicks.

Falta, nisto de salvar o planeta, um objectivo concreto como houve na corrida ao espaço. Esquerda e direita (ou socialismo e capitalismo ou ditadura e democracia ou como quiserem chamar) estavam alinhados em ser os primeiros a chegar à lua. Uns conseguiram isto, outros aquilo, mas a verdade é que chegaram lá tão rápido que hoje, passados 50 anos e não estando a humanidade a demonstrar capacidade para salvar o chão que nos sustenta, ando a desconfiar ter sido tudo uma fake news!

Chatices minhas

Às vezes, ou muitas vezes, apetece-me escrever coisas chatas aqui no blog. Chatas por não terem graça nem objectivo e serem coisas da minha vida igual à de tantas outras pessoas que são apenas isso, chatas de se sentirem, de se dizerem e de se lerem. O problema é que comecei este blog para ter um espaço onde escrever as minhas coisas chatas sem ninguém se incomodar e depois por razões diversas isto ficou assim uma espécie de nim, e agora não tenho muita coragem de chatear os outros nas suas listas de leitura com chatices (mesmo que sejam poucos). Tudo culpa da minha ignorância sobre como funciona o Sapo (que aliás funciona muito bem, há que dizê-lo). Fica assim a minha vontade contrariada pelo meu bom senso e a maioria das vezes acabo por não deitar para fora o que não merece ver a luz das letras, o que pensando no bem da humanidade é uma coisa boa!

Mas hoje não sei porquê estou chateada, e se alguém ainda aguentou ler até aqui este relambório fica a saber que ando cansada, com falta de paciência para marcar a consulta do médico que sei a que tenho de ir queixar-me do cansaço, com falta de energia para organizar os jantares que sei que tenho de fazer porque as pessoas que me apoiam quando eu estou em baixo contam comigo para estas coisas, sem paciência para trabalhar, para aturar clientes e contabilistas e outros colegas a queixarem-se de outras coisas, sem paciência para ser mãe, sem paciência para ser mulher, sem paciência para ser empregada doméstica e trolha e secretária lá em casa, e todas as coisas que sou. Embora nada seja sozinha e nenhumas destas tarefas me pese sem ajuda, pois embora sem paciência reconheço que sou uma privilegiada e tenho tudo o que é preciso, família e amigos que me apoiam, saúde, trabalho e absolutamente nenhuma necessidade de andar aqui a teclar letras atrás de letras só para não fazer o que tenho que fazer. Bom. Vem aí um fim-de-semana porreiro, vou para a aldeia, vou acender a lareira, vou enrolar-me numa manta e vou adormecer no sofá. Depois amanhã se o tempo permitir dou uma volta pelo monte e transplanto alguns carvalhos e loureiros para os campos abandonados e mudo para os vasos as bolotas que já tratei. Pode ser que algum carvalho que eu ando a plantar consiga crescer e faça alguma coisa por este mundo.

Coisas que me passam pela cabeça enquanto dura a viagem de metro

Está frio comó caraças;

Olha aquela gaja de calças rasgadas com os joelhos e os tornozelos à mostra;

Os joelhos dela estão vermelhos, a miúda deve estar cheia de frio;

Porra, mas está de kispo e cachecol, deve estar com o pescoço a suar;

E espirrou! Está super constipada! Pudera, com partes do corpo quentes e outras geladas;

Não sejas má Rita, que o modo como cada um se agasalha é com cada qual;

O caraças Rita! O modo como os ricos bancos geriam o dinheiro também era lá com eles e quando a porca torceu o rabo quem pagou a fatura foram os pobres remediados! A miúda que deve vender saúde está a mandar germes para cima de mim e quem vai pagar a fatura vou ser eu que já não sou tão miúda nem tenho tanta saúde;

AAAtchim!

Roscofe

Ao domingo, quando tenho tempo, entretenho-me a ler artigos de opinião. Pelos vistos a humanidade está mal como nunca esteve, a erudição é cada vez menor e caminhamos todos para a ignomínia.

O que verdadeiramente me preocupa é que onde os outros vêem o nunca visto eu vejo mais do mesmo desde que o mundo é mundo! Já se esqueceram que foram a geração rasca e agora dizem que a nova é que é roscofe.

No meu tempo...

Há coisas engraçadas que descobrimos com a idade! Talvez as soubéssemos desde sempre, mas há um maravilhamento (!) todo especial quando as desembrulhamos com os anos.

Uma delas é o "no meu tempo...". Quando era miúda muito me irritavam pais, tios e avós com o tempo deles. O tempo é agora, as circunstâncias são outras, não se pode comparar alhos com fanecas (!) pensava eu, embora não o dissesse pois o amor é comum a todos os tempos e eu supunha que o que motivava comparações absurdas era a saudade.

Pois bem, chegando eu ao tempo em que já posso dizer "no meu tempo" descobri que não é saudade que o chama, mas sim o "branqueamento de capitais"! Como os putos não viveram no meu tempo eu invento o que me dá na real gana e falo de um tempo que bem vistas as coisas não era o meu!