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Ri-te Rita

que a vida não rima

Ri-te Rita

que a vida não rima

5 gerações

Há uns tempos li um estudo onde se explicava que ao ritmo que a sociedade portuguesa tem evoluído serão necessárias 5 gerações para os homens partilharem as tarefas domésticas em igualdade com as mulheres.

Eu acredito que o estudo traduza a realidade. Uma das maiores desilusões da minha vida adulta foi perceber que muitos dos meus amigos homens, que estudaram ao meu lado, que foram para os copos ao meu lado e que trabalham ao meu lado, se portam dentro de casa da mesma forma que o meu pai se portava com a minha mãe.

Dizem-me que estas coisas culturais e generacionais são difíceis de mudar e mais blábláblá. E eu cito o meu filho e digo: SÓ QUE NÃO!

E também explico: a minha mãe foi educada de forma conservadora e viveu numa época moderna, por isso viveu com o meu pai de uma forma conservadora mas educou os filhos de uma forma moderna (foi uma super mulher que trabalhava fora, trabalhava em casa e tinha à sua responsabilidade a educação dos filhos). Ora, se eu fui educada para pensar que a vida a dois deve ser partilhada a todos os níveis, quando chegou a minha vez agi da forma como fui educada. Posso me orgulhar de dizer que se algum dia eu fizer greve ao trabalho doméstico estarei a desrespeitar enormemente o meu marido, porque ele faz tanto ou mais que eu.

Resumindo, demora apenas uma geração para mudar atitudes. Basta educá-la como deve ser!

Dificuldades

Tenho sempre alguma dificuldade em escrever quando estou em paz com o mundo. Houve alturas da minha vida em que me fartei de escrever, de encher lençóis de papel de tristezas, frustações e outras coisas minhas. Na calmia entre tempestades a caneta arrepiava-me, embora me fascinasse reler os disparates que tinha escrito. Depois de anos e voltas da vida dou por mim melancólica com este estado de alma contente e triste por não conseguir emocionar-me com a alegria a ponto de a escrever. Tento-a passar aos outros em beijos e abraços mas a caneta não é dada a mimalhices.

Coisas do dia

Tenho imensas coisas para fazer, mas a vontade é pouca, pouquíssima. Estou para aqui sentada à secretária à espera que a minha consciência me mande trabalhar ou a minha barriga me mande comer. Acabei de dar algum dinheiro para ajudar os moçambicanos. Claro que não lhes servirá de muito o meu dinheiro. Quando muito servirá para pagar ordenados e viagens de avião para avaliar situações. Rezo como quem já não sabe rezar para que tenham força de vontade e que a natureza os ajude a passar por mais esta provação. Custa-me cada vez mais não ter forma efectiva de ajudar as pessoas. Há uns anos atrás, numa altura em que a seca e a guerra estavam a matar gente, soube com estupefação de armazéns cheios de donativos que as instituições não tinham dinheiro para fazer embarcar para África. Desde essa altura tento dar dinheiro a quem está no terreno, mas continuo a achar que dar esse dinheiro serve mais para me aliviar a consciência do que para ajudar quem está a passar fome. Até porque a consciência está cada vez mais pesada. Cada vez que meto gasolina, cada vez que compro produtos importados, cada vez que consumo sem necessidade, a consciência pesa mais, e não há dinheiro que vá pagar o clima quente e árido, os fogos, a fome e os desastres naturais que por aí vêm se não invertermos este caminho de matar o planeta. Que os moçambicanos me perdoem, que os meus filhos e netos me perdoem, que não há dinheiro que eu possa pagar agora que lhes facilite a vida depois.

Ouvir as palavras

Hoje de manhã, enquanto tomava banho ao som do "Telemóveis" e debatia com o meu marido, que estava a lavar os dentes, a poesia e o Conan (em quem estou viciada, já estava antes e ultimamente piorei da maleita!), sai-lhe pela boca, entre pasta de dentes e água bochechada, a melhor definição de poesia de sempre "quando leio um texto em prosa eu entendo as palavras que estão escritas, mas quando leio poesia eu ouço as palavras na minha cabeça".

E bom, como diria o meu filho, a vida é isto!