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Ri-te Rita

que a vida não rima

Ri-te Rita

que a vida não rima

Não me apetece trabalhar!

E quando não me apetece, dá-me para pensar sobre nadas. Como escrever demonstra algum trabalho, mais vale pôr-me a teclar p'ráqui do que ficar a olhar para o tecto. Um dos meus tópicos favoritos para pensar na morte da bezerra é imaginar o que passa na cabeça dos outros. Isto porque ninguém diria o que passa pela minha. Já questionei várias pessoas que eu conheço sobre o que acham de mim e a última coisa que lhes passa pela cabeça é que eu goste de escrever poemas, por exemplo. A mim também não me passaria pela cabeça que Stalin gostasse de escrever poemas, mas ele fê-lo! Não é que eu tenha algo em comum com a personagem, só que quando soube achei deveras extraordinário! Ou seja, encerramos dentro de nós tantas pequenos gostos que não se adequam à nossa imagem, que por mais que nos tornemos iguais por fora, seremos sempre diferentes por dentro. Isto tudo veio-me à cabeça porque ontem li uma escritora dizer que os seus textos, que parecem escritos ao correr da pena (como este), são na verdade rascunhados, compostos e recompostos até à perfeição. Claro que esse é o verdadeiro talento de um escritor, trabalhar as palavras de tal forma que elas parecem ter brotado ali da terra por acção simples do sol e da chuva. Como a excelência dos ginastas, que é atingida quando fazem um flic flac à retaguarda parecer tão fácil como um passo a caminhar. Fazer o difícil parecer fácil é talvez a melhor definição de talento. Ou... Fazer o díficil parecer fácil é o mais difícil de tudo.

Por falar em dificuldades..., como estive para aqui a mandriar, vou ter de ficar a trabalhar até mais tarde. Merda...

O tédio

Tenho descoberto nos últimos tempos que o tédio é um motor de inspiração equiparável ao amor, ao sonho e à saudade. Talvez não conheça assim tanto o universo literário, ou talvez leia livros com prazo de validade ultrapassados, mas não me passava pela cabeça que se escrevessem tantos textos e poemas, com talento e maestria, dedicados ao tédio. Sinal dos tempos! Bons sinais dos tempos em que já não há desgraças credíveis para puxar o sentimento. Ou então maus sinais dos tempos em que a desgraça já é tão vulgar que ombreia com o tédio como musa dos autores.

Telenovela

Eu que não ligo nada ao futebol, que às vezes não sei se o meu clube vai à frente ou em último no campeonato, ando deveras entusiamada com esta novela sportinguista. Confesso que é um vício mau e errado, mas tem todos os ingredientes de uma tragédia grega bem estruturada, de cujo enredo se podem elaborar doutas dissertações sobre a condição humana e a evolução das sociedades. Tem todos os argumentos convencionais, desde o diabo feito homem e os seus discípulos que diligentemente concretizam as suas ordens, às vítimas inocentes que se unem num por todos e todos por um sob os olhares angustiados dos espectadores. Agora estamos a chegar ao espisódio em que vai surgir o herói redentor que vai combater as chamas e libertar os inocentes. Estou em pulgas!!! :-)

Sentimento

Ao longo da história dos homens já houve de tudo, desde quem apregoe o moralismo sem ter nenhuma moral, a quem defenda a liberdade impondo a censura ou quem lute pela igualdade descriminando. Agora temos um que apela ao sentimento espezinhando os sentimentos dos outros.

Vá lá! Podia ser pior.

Pardalinhos

Este fim de semana fui para aldeia. Levava como tarefa cortar uma árvore do jardim que estava demasiado alta, demasiado perto da casa e que estava a pôr em perigo o muro de pedra do vizinho. Estava-me a custar cortar uma árvore quando ando plantá-las, mas era demasiado perigoso deixá-la ali.

Antes de o fazer informei-me na net sobre a árvore, o tipo de raízes, o comportamento ao fogo e se seria uma espécie protegida. Cheguei inclusive a falar com quem estuda a flora local. Mas por mais opiniões e pesquisas que possa ter feito não deixo de ser uma rapariga da cidade!

A família estava toda a cortar a árvore, tinhamos o equipamento apropriado, fizemos o plano, amarramos as cordas, puxei a árvore no ângulo certo, a árvore caiu sem tocar nem na casa nem no muro, íamos ter lenha para muitos dias, estávamos todos animados... quando nos apercebemos que a árvore tinha ninhos, que tinha um ninho com pardalitos e que estavam pardalitos mortos misturados com os ramos e folhas caídas.

Conseguimos salvar dois, transferimos o ninho para a árvore ao lado e assegurei-me que os pais pardais o viram, mas isto de tentar fazer coisas boas nem sempre leva a bons resultados. Não devia ter cortado a árvore em plena primavera na época de nidificação. Se fosse uma rapariga da aldeia provavelmente sabería-o, e não há net nem especialista que ensine uma coisa assim.

Pantufas

Há já alguns anos atrás, e estando eu em modo de cusquice, uma colega contou-me o caso de um antigo director dela que aos quarenta/cinquenta anos deixou a mulher e casou com a secretária. A minha colega, que era amiga do novo casal, disse-me que compreendia a situação e que ele lhe tinha confidenciado que com a primeira mulher "chegava a casa e calçava as pantufas" e com a nova "calçava as botas e fazia rafting ao fim-de-semana". Vidas à parte, sempre me ficaram na memória o raio das pantufas. Talvez porque eu chegue a casa e calçe as pantufas. Eu, o marido e os flhos, porque cá em casa evita-se sujar o chão. Mas mesmo assim, não raras vezes ao calçar as minhas pantufas me lembro das pantufas do director. E de sermos, afinal, pouco mais que calçado para os pés. :-)