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Ri-te Rita

que a vida não rima

Ri-te Rita

que a vida não rima

Inércia

Há um fenónemo que ultimamente me tem vindo a preocupar cada vez mais em vários sentidos. A Inércia. A nossa e a da Terra. Mas preocupa-me mais a da Terra, porque é imensuravelmente superior à nossa.

Os cientistas afirmam que a Terra está a aquecer. A inércia térmica de um material é a sua capacidade de reter o calor. É este fenónemo que faz com que um banco de pedra que está ao sol demore a aquecer, mas também com que depois de estar morninho ainda nos aqueça o rabo quando a seguir passa uma nuvem.

Simplificando, pode-se dizer que quanto maior o peso do objecto, maior a inércia. Ora, a Terra pesa 5.9722 × 1024 kg. É de prever que demore muuuuuito a aquecer. Os seres humanos pesarão 287 ×109  kg. Em comparação levarão muito menos tempo a mudar de ideias!

Mas será suficiente mudarmos de ideias? Quando a nossa inércia acabar, quando formos todos ecologistas e poluir punível com pena de morte, por quanto tempo mais continuará a Terra a aquecer?

 

Serenidade outra vez

E porque fiquei a pensar no que escrevi ontem, cheguei à conclusão que as histórias, a razão de eu ler, a busca incessante das vidas dos outros, dos "porquês" e "como" daqueles que habitam em mentes diferentes da minha, já não me cativam como antes. É como se o espaço que eu tinha na mente, que antes preenchia com as histórias dos outros, estivesse a ser gradualmente preenchido com a minha própria história, deixando cada vez menos memória para gastar com a vida dos outros. Curiosamente leio cada vez mais poesia, talvez porque poemas não ocupem espaço.

Serenidade

Tenho um certo medo do que a idade fará à minha vontade de ler. Sei que a idade nos faz perder a visão, a concentração e a paciência tantas vezes necessária para nos debruçarmos sobre as palavras. Vi-o acontecer em familiares próximos, os livros que dantes andavam pela sala, perdidos entre o sofá e as mesas, passaram a enfiar-se nas estantes antes mesmo de serem abertos. 

A mim já me está a falhar a paciência, já deixo livros por acabar (sacrilégio que anos atrás me faria banhar em água benta), já passo semanas sem ler um livro, e quando o faço já consigo demorar uma semana a acabá-lo. Mas a falta de paciência revela-se especialmente aguda na minha crescente incapacidade de ler textos mais complexos, que alguns chamam de bem escritos ou boa literatura! Confesso-me algo burra, e não percebendo um texto à primeira, ando com falta de paciência para repetir a leitura. Aliás, ando com falta de paciência para ficar com dúvidas sobre o que leio. Só consigo ler coisas simples. Discurso directo. Quando muito, metáforas óbvias. Tudo o resto me parece uma terrível perda do meu tempo. E ainda não me decidi se choro ou se rio.

Estados de alma

Ando revoltada. Como ando revoltada, ando a falar com este e aquele. Como ando a falar aqui e acolá, fiquei a saber coisas muito importantes:

- Não se deve ir a manifestações porque o nome da manifestação não é correcto;

- Não se deve ir a manifestações porque não há um destinatário concreto das demandas;

- Não se deve ir a manifestações porque quem vai só pensa em selfies;

- Não se deve ir plantar pr'á serra porque não há aval do doutorando; 

- Não se deve ir plantar pr'á serra porque quem vai só pensa em selfies;

- Não se deve ir plantar p'rá serra porque é preciso licença.

 

Ora bem, com licença sff, mas só se sente impotente quem não se levanta do sofá.

Licenças

Há alguns (quase muitos) anos atrás, depois de ter feito um teste de gravidez e ter percebido que estava grávida, fui à obstetra. Qual não foi o meu espanto quando a médica me deu um sermão por eu, querendo engravidar, não ter ido antes a uma consulta, feito uns exames e tomados umas pastilhas.

Pensava eu, na minha ingenuidade, que sabia tudo o que havia para saber sobre como fazer um bebé! Afinal era preciso pedir uma licença camarária!!! Tempos depois, a contar o episódio a umas amigas, algumas delas, para meu espanto, concordavam com a médica. Por ironia do destino, ou desgraça alheia a ele, essas minhas amigas hoje não têm filhos!

Portugal é um maravilhoso país de contrastes.

O céu está azul e as crianças já brincam na rua

Choveu. A casa salvou-se. Obrigado Deus por teres tido um tempinho para tratar do meu pedido. Eu sei que tens a vida muito ocupada, tens de salvar meio mundo, matar outro meio, deixar uns com muito e outros com nada, por isso fico muito agradecida por ter ficado acima da linha d'água (ou de fogo).

Entretanto estive a tratar da minha lista de promessas. Peço desculpa por usar este espaço para a escrever mas assim fico mais comprometida com o dito e o escrito. O meu rácio de cumprimento de promessas é de 2 em cada 3, o que não será mau de todo! Então vamos a ela...

 

Eu solenemente prometo que:

1-Vou novamente telefonar ao figurão de Lisboa com as heranças encravadas, que tem a quinta abandonada junto à minha casa, para lhe propor a compra da parcela da quinta anexa ao meu lote. Vou perder a vergonha na cara e ameaço-o, não com as queixas que já faço na Junta, mas com fotos no facebocas do mato a cobrir as árvores ou com denúncias à CMTV sobre a negligência dos altos cargos da nação.

2-Vou perder amor ao dinheiro e limpar todo o campo agrícola abandonado ao lado do meu campo, que pertence a gente que viverá no Brasil há mais de 50 anos sem nunca cá pôr os pés, e não apenas a faixa de 1 metro que tenho mandado roçar todos os anos. Depois de limpo o mato, vou perder amor ao dinheiro e plantar lá árvores que evitem que as silvas cresçam.

3-Vou cortar umas árvores do jardim que estão demasiado perto da casa e que são mais susceptíveis ao fogo.

4-Vou comprar castanheiros, carvalhos e azinheiras e plantar nas áreas que arderam.

5-Vou comprar um extintor e colocá-lo à vista no hall de entrada.

6-Vou alterar o isolamento térmico com que tencionava revestir a casa por um outro ignífugo.

7-Vou poupar mais água em casa, aproveitando a água fria que tenho de desperdiçar até chegar a água quente.

8-Vou dar o comando dos portões à vizinha do lado, para em qualquer emergência poder usar a casa.

9-Vou saber se a aldeia tem uma motobomba para abastecer as mangueiras em caso de falta de energia, e se não a tiver, vou organizar uma recolha de fundos para a comprar.

10-Vou falar com a Câmara para colocar um marco de incêndios no largo.

 

Depois vou despedir o neurónio responsável pela gestão da casa. É um neurónio bem intencionado, emotivo e trabalhador, mas andava feito barata tonta e pensar no que se poderia fazer, quando há tanto por onde começar. Só pensava em passeios pela mata a plantar pinheiros e apanhar pinhas, mas para alguma coisa mudar é preciso gastar dinheiro e não deixar para os outros o trabalho que é de todos nós.

 

Mais nada para dizer

Já se disse tudo. O mais que tudo alguém dirá amanhã.

Hoje o fogo está a rondar a minha casa. Já não sei nada de nada. Apenas sinto. Uma dor no peito igual a quando um dia pensei que ia morrer. Uma vontade de esmurrar a parede até ficar com as mãos em ferida. A cabeça a latejar como se o mundo estivesse todo a gritar ao mesmo tempo. E uma preocupação com as pessoas que conheço que me está a fazer vomitar.

E estou a rezar para que chova rápido, estou bastante enferrujada nisto de rezar, e não sei se com tanto barulho Deus vai ouvir, mas estou a rezar para que ouça.

Arranha-céus

Normalmente o meu cérebro anda meio adormecido! Só isso explica que apenas hoje tenha me apercebido que a razão de construirmos em altura, é sermos descendentes de macacos que viviam em árvores. Se os nossos antepassados fossem toupeiras, provavelmente vivíamos em arranha-terras.

Votar

Gosto muito de votar. De ver gente nova, velha, pobre, rica, de fato ou de calções rasgados, todos a dirigirem-se ao mesmo local para decidir o futuro que a todos é comum. É das poucas ocasiões em que gosto de filas de espera, quanto maior a fila, melhor. E gosto de sair com o dever cumprido, agradecendo a quem, gerações atrás, lutou para que eu pudesse votar.

Hoje, ao sair da escola onde votei, ouvi ao meu lado uma mulher que também estava a sair, dizer: "Agora quero é ver a cara do fininho quando ele perceber que caiu do poleiro!" Não sei quem era o fininho. Não sei a cor ou o credo do voto da mulher. Mas aquela confiança de achar que era o voto dela que deitava o fininho abaixo do poleiro, traduz de certa forma a alegria de votar.