Saltar para: Posts [1], Pesquisa [2]

Ri-te Rita

que a vida não rima

Ri-te Rita

que a vida não rima

Simplicidades

Vou a pouco mais de meio da vida. Sei disso porque há muitos anos atrás combinei com Deus o meu prazo de validade, e ele embora goste de dar a entender o contrário, até agora tem cumprido com o prometido. Passei este meio de vida a olhar para mim, a olhar para os outros e a olhar para o ar (talvez este último mais que os primeiros). Gosto de tirar conclusões das minhas observações, e também acho piada mais tarde provar que estava errada. É uma maneira de me entreter, que é a única coisa que cá andamos a fazer. Além de analisar os outros, também gosto de analisar a análise dos outros. E mais ainda, de analisar a análise da análise dos outros. Continuando, conclui que as razões por detrás dos actos são sempre as mais simples. As pessoas agem e falam por razões simples e óbvias à vista de todos. Conspirações e segundos sentidos só existem na cabeça de paranóicos e escritores, ou então de comentadores, que no fundo são um mix dos dois. Conclui também que as razões por detrás dos actos são quase sempre emotivas, em oposição às racionais. Quererá isto dizer que a emoção é simples? Talvez não. Mas é mais fácil. Então talvez as pessoas ajam e falem por razões fáceis, que talvez não sejam simples.

Bom, tanta parvoíce junta só se percebe porque vou de férias, e é mais fácil para mim estar aqui a escrever do que ir fazer as malas.

Férias

Férias são aqueles dias em que me esforço mais por deixar de ser aquele misto estúpido de gaja assertiva com a mania e miúda aborrecida com depressão e tento ser uma mulher mais fixolas. Pena é que vão ser só duas semanas.

O paradoxo

Penso sempre três vezes antes de falar sobre actualidadezecas, mas este tema do Salvador só me tem dado vontade de rir, e bom, tenho andado necessitada de rir. Então não é que o homem (que já não é nenhum menino, valha-me Deus, 27 anos!) tem a mania de chorar que antes ninguém lhe ligava, como se o mundo tivesse a obrigação de se ter rendido a seus pés no momento em que ele abriu as goelas, e que agora todos o idolatram, menosprezando desta maneira os tolos como eu, que só agora lhe dão visualizações nas músicas do you tube. Vai daí, queixa-se que mesmo que mande um peido todos o aplaudem. Ora, tratando-se tais declarações, ditas no momento que foram ditas, de um peido por si só, qual não é o meu espanto quando vejo por aí gente a aplaudir. Paradoxal, não!

Perdoem-me os que perdoam, mas o que o menino precisa é de uma sapatada no rabo e um lembrete que educação nunca é demais, e não de uma esfregadela no cabelo e um "ai que giro que ele é!"

Posto isto, vou continuar a ouvir o moço, porque gosto das canções e isso é que interessa.

4 perguntas talvez parvas

1) Agora fala-se muito em limpar o mato e nas populações rurais que o limpavam que estão a desaparecer e etc. Ora, no tempo das cavernas não havia populações rurais nem urbanas. Quem limpava o mato? Se é verdade que já não há gente nas aldeias e que a agricultura está abandonada nos montes, porque não enchem as serras de coelhos, raposas, cabras, cavalos, vacas e outros animais que gostam de comer ervinhas!

2) Agora fala-se muito em plantar sobreiros e carvalhos e etc, que não propagam tanto o fogo, mas porque é que ninguém fala de plantar laranjeiras e macieiras e pereiras e etc. Talvez se a serra tivesse fruta, apareciam os tais animais, que comiam o tal mato, que propaga os tais incêndios.

3) Agora fala-se muito em níveis de CO2 e de ozono e de partículas e do aquecimento global imparável e etc, mas porque é que ninguém fala de níveis de oxigénio. É uma das perguntas existenciais que me tem acompanhado ao longo da vida! Se respiramos oxigénio, porque que raio é que falam no nível de CO2 e não no nível de O2. Eu sei que o CO2 provoca efeito estufa que provoca aquecimento global que provoca incêndios, mas se avisassem as pessoas que o oxigénio está a diminuir talvez alguns levantassem o rabinho das cadeiras onde estão sentados.

4) Agora também se fala muito que daqui a uns meses já não se falará nada. Então porque é que essas pessoas não falam sobre Arouca, que ardeu no ano passado e que continua negra, com os mesmos eucaliptos que arderam no ano passado, a renascerem à volta dos troncos ardidos, para que daqui a uns anos possam novamente arder. É fazer uns km na A1 e ir lá espreitar, não custa assim tanto!

O que fazer?

Sou uma pessoa de lágrima fácil e choro difícil. Caem-me lágrimas por tudo e por nada, por um livro, por um  filme ou um poema. Inclusive, já desenvolvi uma técnica de sacudir discretamente as lágrimas antes de me molharem a pálpebra para não passar vergonhas. Mas quando acontecem desgraças com os meus ou com o mundo, os meus olhos mantêm-se secos. Sinto-me com um cérebro demasiado pequeno para gerir tanta emoção, e a dor só aparece à noite disfarçada de ansiedade que se entranha nos sonhos.

Por isso tenho andado de rosto seco com tanta tragédia e a pensar o que poderei fazer para prevenir que isto volte a acontecer. Sei que os problemas resolvem-se quando o poder político e económico começarem a tomar decisões, mas acredito que a soma das pequenas acções de cada um de nós pode resultar numa grande acção conjunta. É por essa razão que eu voto, é por essa razão que eu reciclo, que eu evito andar de carro (dado que ainda não tenho como comprar um eléctrico), e é por essa razão que no ano passado plantei árvores quando andei em caminhada pelo monte. Este ano dei algum dinheiro para ajudar as pessoas que dele vão precisar, e decidi que quando fizer caminhadas vou andar com a tesoura de poda na mão para cortar os eucaliptos pequenos que vir e evitar que cresçam (já que não tenho como cortar as árvores grandes) e encher a mochila com as pinhas que conseguir para fazer uma micro limpeza do mato. Mas isso é pouco, mesmo para mim, e ando a matar a cabeça a pensar no que mais poderei fazer.

Memória

Ando com falta de memória na medida certa. Lembro-me de ter gostado muito de um livro mas já não me lembro da estória. Assim, leio livros recomendados por mim a mim! 

Ser e estar

às vezes ponho-me a pensar se os senhores do existencialismo observaram nos seus ensaios o efeito dos inibidores de recaptação serotonina. se "ser" melancólico é um conjunto de estados em que se "está" melancólico ou se se pode "estar" melancólico sem o "ser". se dois indivíduos idênticos "estão" melancólicos e um toma a pastilha, qual deles é que o "é"?

há uns meses atrás a falar com uma amiga que volta e meia está deprimida, ela contou-me que prefere as alturas em que está a tomar anti-depressivos porque se sente mais ela própria, como se a depressão fosse uma dor que se alivia. concluí então que ela não era depressiva mas sim estava depressiva. ora, provavelmente eu não estou depressiva, mas sim sou depressiva, porque sinto que ao me medicar deixo de ser quem sou, como se estivesse a enfiar a minha alma mal-educada num colégo de freiras.

claro que, talvez questões filosóficas destas hoje em dia não se coloquem, porque agora os filósofos pensam todos em inglês, francês e alemão e com "to be", "être" e "sein" não há razão para estes disparates. 

Copo meio vazio

Ando com o copo meio vazio, que é o mesmo que dizer que ando deprimida. Quando estou assim, magoam-me as arrogâncias dos outros (as minhas nestas alturas não se atrevem a sair da carapaça), e visto a pele dos que não lêem o que se deve ler, ou talvez dos que nada lêem, dos que não ouvem o que se deve ouvir, ou talvez dos que nada ouvem, dos que não vão ao teatro nem ao cinema, dos que comem fast-food, e ai Jesus, que o dão aos filhos aqui e acolá, que vivem vidas sentadas, que engolem o que é fácil de engolir, pela simples razão de que é fácil, e que nada fazem para mudar o mundo, porque o mundo é difícil de mudar entre o almoço e o jantar.

Se pudesse tomava um copo meio cheio! Ficava alegre, aliviada e escrevia textos decadentes sobre o peso da vida, sentindo que lia o que há a ser lido ao som do que deve ser ouvido. Mas não posso. Já não tenho estomago, nem figado, nem vesícula para isso. Se tomar uma só gota de álcool dói-me a barriga, vomito e passo três dias sem suportar a cabeça, tudo sem gota de alegria para fazer valer a pena. Por isso o melhor é tomar a pastilha, porque há que ser a mãe, a mulher, a filha, a amiga e a profissional que tenho de ser. Há que ser, ou não ser, até hoje ainda não percebi a questão.

Às vezes

Às vezes leio textos onde os outros encontram franco talento ou talento franco e eu só vejo talento frio. e às vezes leio textos onde os outros nada vêem, senão banalidades, e eu encontro vida. às vezes não percebo o que me dizem, e às vezes não escrevo o que percebo. às vezes choro pela formiga, e outras rio-me do mendigo. às vezes. e outras vezes não.