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Ri-te Rita

que a vida não rima

Ri-te Rita

que a vida não rima

Coincidências

"As coincidências são o sal da vida" disse-me uma vez uma amiga. A verdade é que as acho irritantes! E espanta-me o espanto das pessoas quando se deparam com elas. Com 7 mil milhões de gente no planeta, absurdo era se não houvessem acontecimentos iguais. Aliás! Apresentem-me alguém único e eu adorá-lo-ei como a um Deus! Outros há, que sentem que as coincidências estão a aumentar, como se isso fosse uma espécie de chamamento para o mundo espiritual. É uma questão de estatística! Quanto maior a vida, maior a probabilidade de dois acontecimentos coincidirem. Bah!

Metáforas

Adoro metáforas! Exceptuando-se a palavra em si, que para vocábulo grego não tem piada nenhuma. Na minha opinião uma metáfora deveria ter um nome espectacular, que por si só, fosse uma metáfora à metáfora! Mas bem, o que queria aqui dizer é que me dou mal com algumas metáforas bem conhecidas, principalmente as mais antigas. Por exemplo "amor é um fogo que arde sem se ver"! Passei anos da minha vida a sentir-me desajustada com o raio do amor, com uma vontade amedontrada de sentir esse fogo. A certa altura já era mais o medo que a vontade! E na verdade, acho que nunca o senti. Não me consome nenhum fogo. Que raio de imagem! Fico logo a pensar em incêndios, mata queimada, calor asfixiante, inferno, e por aí fora...O amor para mim é água que me alívia a sede, que me envolve quando me banho, e outras piroseiras que tal, relacionadas com H2O. Então, depois de muito martelar a cabeça cheguei à conclusão óbvia que eu sou do tempo do aquecimento eléctrico e Camões era do tempo das lareiras. E fico assim pasmada, por ter andado, eu e talvez mais uns tantos tolos, atrás de metáforas sem as contextualizar, porque eu tinha percebido muito mais depressa se me tivessem dito: "amor é um kW que se transforma sem se ver".

Dedos dos pés

Ontem estava a pintar as unhas dos pés e a pensar que os dedos dos pés são como países em vias de desenvolvimento. Atrasaram-se no crescimento (talvez porque suportavam a carga de um corpo inteiro) e agora, por mais que o polegar do pé se queira separar dos restantes dedos e tornar o pé útil para outra coisa que não andar, já não há espaço dentro do sapato para o fazer. Ficaram assim, ruínas do que poderia ter sido interrompido pelo que veio a ser.

O que toda a gente sabe

Às vezes pergunto-me se saberei eu "o que toda a gente sabe"! Dou por mim recorrentemente a concluir o que toda a gente já concluiu (e em "toda a gente" também me incluo eu) e a espantar-me com o que não é novidade para ninguém. Não é de estranhar que a minha primeira lembrança de ter feito algo memorável (teria eu uns dois ou três anos), tenha sido descobrir que puxar o puxador da porta para baixo fazia com que esta se abrisse! E o que ainda hoje me causa espanto, é a nítida memória que tenho de pensar ter descoberto algo que ainda ninguém sabia. Ora, eu considero-me gente desde os 16 anos (data em que senti que tinha parado de crescer) e desde essa altura não mudei muito a minha maneira de pensar. Por isso, como explicar que ando a descobrir o mundo quando já passou tanta vida por mim! Como não podia deixar de ser, conclui que lá por se saber uma coisa, isso não significa que se compreenda a mesma. Eu sempre soube que ia sofrer se os meus pais morressem antes de mim, mas só entendi a dor que se sente, quando o meu pai morreu. E, sendo este um exemplo do que eu para aqui estive a querer dizer, por si só, também é uma coisa que já toda a gente sabe.

Moda

Nunca fui de modas! Quando era miúda vesti uma saia de balão quando todas as minhas colegas já as estavam a arrumar no fundo do armário e a única vez em que me apanharam de calções curtos, meias calças e casaco largo foi num casamento em que a minha mãe já estava a dar em doida com a lista do que eu não queria vestir. Ou talvez sempre tenha sido de modas atrasadas (talvez por vergonha de ser de modas adiantadas!), mas não acho piada a essa correria de quererem ser todos iguais. Às vezes sinto-me arrastada por uma corda comprida pela multidão das gentes, e a caminhar para aqui e para ali por força dos puxões que me dão. Mas também há ocasiões em que me adianto em meses ou anos à moda, em que depois de anos a explicar a diversas cabeleireiras como quero o cabelo e de as ver a torcer o nariz, um dia sentar-me na cadeira e elas reponderem-me com ar naturalíssimo, "ah, quer as madeixas que estão na moda!". O que me faz concluir que provavelmente eu estarei parada e anda uma multidão de gente em ziguezague à minha volta a correr de braços estendidos a apanhar gambuzinos.

Bem, todo este discurso porquê? Porque eu ultimamente tenho dado por mim a agradecer à moda! A conversar com colegas de muitos anos a dizer: "lembras-te...das saias de balão! dos anéis gigantes! do cabelo à futebolista! e de muitas outras modas, e essas lembranças trazerem-me uma sensação confortável de pertença. E sinto que, vendo a sociedade como um todo, sermos todos iguais em épocas distintas torna-nos mais únicos do que sermos todos diferentes em cada época. E talvez daqui se pudessem retirar muitas conclusões sobre a importância do indivíduo face ao grupo e vice-versa, mas hoje não me apetece porque estou bem disposta.

Dias

Sempre tive a convicção de que grandes textos eram escritos com grandes doses de emoção e sempre acarinhei aqueles desabafos que escrevi de mim para mim com lágrimas nos olhos. No entanto, nunca me apeteceu escrever nas ocasiões em que a minha vida realmente abalou, nessas alturas só me apetecia calar as palavras. Também sempre pensei que quanto mais simples e honesto fosse o nosso discurso, mais bonito ele seria, embora não ache graça a ontem ter recebido o resultado de um exame médico e ter estragado o meu aniversário de casamento.

Talvez seja melhor dizer hoje, que se abriu novamente à minha frente a via da urgência, que a via da urgência já não é nova para mim, que pensava já me ter desviado dela, e que desejo a mim própria o aborrecimento da via da direita (salvo seja!). Ou talvez não, talvez o melhor seja deixar passar o tempo e não dizer nada.

Abortar

Uma amiga de uma amiga minha, que estava grávida, abortou depois de fazer a amniocentese e esta ter indicado que o feto tinha deficiência. Eu nem consigo enquadrar o sofrimento! Quando estive grávida não quis fazer o exame. Caso os resultados revelassem deficiência, nunca me iria perdoar da decisão que teria de tomar, fosse ela qual fosse. Não estou com isto a julgar ninguém, sou acérrima defensora da liberdade das mulheres decidirem o que fazer com o próprio corpo, e isso, para mim, inclui a decisão sobre se querem passar por uma gravidez ou não. Aliás, votei a favor do aborto e voltaria a fazê-lo. Mas eu nunca o faria por conveniência. E talvez nem por outro motivo. Lembro-me muitas vezes da conversa que tive com uma vizinha na aldeia, já tinha ela mais de 80 anos, em que me contou com lágrimas nos olhos e nas rugas, o aborto que tinha sofrido quando ainda era rapariga, entre o primeiro e o segundo filho. E eu, pasmada como tantas vezes com a vida e o tempo, só me perguntava, como é que esta mulher, passados tantos anos, já viúva, com filhos e netos adultos, ainda se emocionava, como se tivesse sido ontem, com a perda de um filho que nem forma tinha!

A matemática dos defeitos

Se há coisa que me enerva são erros matemáticos (ortográficos e de sintaxe também, mas como os cometo mais amiúde sou mais tolerante). Quando era mais nova fazia-me muita confusão a matemática do sexo. Ou seja, os homens diziam que já o tinham feito com dezenas de mulheres e as mulheres diziam que tinham tido poucos parceiros ou mesmo nenhuns. Matematicamente falando, considerando o conjunto fechado da população mundial (desprezando eventuais relações extra-terrenas), tratava-se de uma impossibilidade. Claro que há quem explique tal discrepância com as prostitutas ou com as ninfomaniacas, mas se olharmos bem para o número de umas e outras em relação ao total da população, não há tantas assim nem a trabalhar tanto. Claro que a explicação está no facto dos homens manterem uma lista pormenorizada das mulheres com quem tiveram sexo, com quem se agarraram, a quem beijaram e a quem deram um olhar mais demorado, e depois confundirem nomes e números de tal forma que passa a ser tudo a mesma coisa. Enquanto que as mulheres têm tendência a não contabilizar o que não convém lembrar, porque coisa esquecida é coisa não acontecida.

Bem, hoje enerva-me a matemática dos defeitos. Numa conversa, numa rede social ou num jornal, tal e coisa, coisa e tal, este mundo está cheio ou de mentirosos, ou de picuinhas, ou de irresponsáveis, ou de circunspectos, ou de coscuvilheiros, ou de corruptos, ou de qualquer outra coisa que alguém com a coluna bem posicionada acha. Eu aqui há uns tempo fiz um RX e descobri que tenho escoliose, mas nem é essa a questão. O engraçado é que toda a gente que está à volta diz ou escreve "sim senhora", "é mesmo isso", " agora é que disseste tudo", "conheço tantos exemplos assim", "isto assim não vai lá", e por aí fora. Ora matematicamente falando, se um afirma que o mundo está cheio de pessoas "m", mas ele e todas as pessoas que o rodeiam afirmam ser "b", trata-se de uma impossibilidade. Então, qual será a proposição correcta: o mundo possui apenas alguns elementos "m" mas está está cheio de pessoas "b" entre elas o orador e seus apoiantes; ou o mundo está cheio de elementos "m" exeptuando o orador "b" que é tolerante com a falsidade dos seus apoiantes "m" para se sentir apoiado?

Mudando de assunto, ou talvez não, há uns dias atrás em conversa com amigos sobre os incendiários e os tiroteios nos Estados Unidos, alguém disse ter lido que 1 em cada 10 pessoas é maluca. Eu olhei à minha volta, como éramos 11 e estava lá eu: checked. E o maior problema desta frase, é que ela encerra em si mesma a verdade de uma forma que a sua ligeireza não faz prever. 

Os significados

Quando algum dos meus filhos pergunta o que quer dizer isto ou aquilo e eu e o meu marido tentamos explicar a ideia usando diferentes analogias, fico sempre a pensar que cada um de nós entenderá o significado das palavras de uma forma ligeiramente diferente, e que talvez seja essa a razão de alguns gostarem mais desta ou daquela canção ou deste e daquele autor. E talvez isso também explique que eu fique tão surpresa quando ouço as pessoas a falar do que as comove, porque para mim algo impossível é algo que não se consegue fazer e extraodinário é algo que foge da normalidade, e há muita gente que acha impossíveis coisas ao alcance da vontade ou extraordinário aquilo que se repete vezes sem conta.

Querido blog

Querido blog,

Estou a chegar à triste conclusão que me estou a habituar a ti, ou pelo menos à ideia de te ter. Andei uns dias sem te ter acesso e já não sabia o que fazer com as ideias estapafúrdias que me ocupam a mente. O pior é que se antes simplesmente as descartava e tinha conversas decentes sobre política e economia, agora ganhei o bicho de as passar e como em vez do teu ecrã me apareceram outras pessoas à frente foi algo do género: "- Sabes, li ontem nas notícias que descobriram mais uma galáxia feita de matéria negra! - Fixe! - Sabes, por vezes penso que a matéria negra está para o universo assim como o petróleo está para a Terra. - Por ser preto? - Não, por ser produto da compressão da matéria viva à face da Terra que levou milhões de anos a ser composto, assim como a matéria negra poderá ser fruto da compressão da matéria estrelar que já leva bilhões de anos a ser formada. - Ah ah! - E já pensaste que da mesma forma que o petróleo evoluiu os transportes da navegação no mar à velocidade do vento para o vôo de avião acima da velocidade do som, a matéria negra um dia nos permitirá ultrapassar a velocidade da luz! - Talvez! - E não sentes que o petróleo é a alma de outra civilização que já por cá andou como nós, e que causou tanto mal ao planeta que este se dividiu em continentes e a enterrou? -....Olha, a água está espectacular, não queres vir dar um mergulho? - Não achas que antes que o mar derreta os glaciares, e inunde as cidades e as ilhas, vai começar a cozer os peixes? E antes das areias invadirem os campos, já terão desaparecido todas as árvores por terem ardido? - Olha, vou comprar um gelado. Queres? - Sabes, a Terra é feita de pedra e a pedra o que mais tem é inércia? Já alguém terá estudado por quantos anos continuará a Terra quente, mesmo depois de deixarmos de a aquecer? Isto é como o déficit, podes deixar de consumir mais do que produzes, mas vais ficar eternamente a pedir empréstimos para pagar os juros dos empréstimos que pediste! - Corneto ou magnum? - Quero aquele que não tem pau para ser ecológica."