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Ri-te Rita

que a vida não rima

Ri-te Rita

que a vida não rima

Dificuldades

Tenho sempre alguma dificuldade em escrever quando estou em paz com o mundo. Houve alturas da minha vida em que me fartei de escrever, de encher lençóis de papel de tristezas, frustações e outras coisas minhas. Na calmia entre tempestades a caneta arrepiava-me, embora me fascinasse reler os disparates que tinha escrito. Depois de anos e voltas da vida dou por mim melancólica com este estado de alma contente e triste por não conseguir emocionar-me com a alegria a ponto de a escrever. Tento-a passar aos outros em beijos e abraços mas a caneta não é dada a mimalhices.

Coisas do dia

Tenho imensas coisas para fazer, mas a vontade é pouca, pouquíssima. Estou para aqui sentada à secretária à espera que a minha consciência me mande trabalhar ou a minha barriga me mande comer. Acabei de dar algum dinheiro para ajudar os moçambicanos. Claro que não lhes servirá de muito o meu dinheiro. Quando muito servirá para pagar ordenados e viagens de avião para avaliar situações. Rezo como quem já não sabe rezar para que tenham força de vontade e que a natureza os ajude a passar por mais esta provação. Custa-me cada vez mais não ter forma efectiva de ajudar as pessoas. Há uns anos atrás, numa altura em que a seca e a guerra estavam a matar gente, soube com estupefação de armazéns cheios de donativos que as instituições não tinham dinheiro para fazer embarcar para África. Desde essa altura tento dar dinheiro a quem está no terreno, mas continuo a achar que dar esse dinheiro serve mais para me aliviar a consciência do que para ajudar quem está a passar fome. Até porque a consciência está cada vez mais pesada. Cada vez que meto gasolina, cada vez que compro produtos importados, cada vez que consumo sem necessidade, a consciência pesa mais, e não há dinheiro que vá pagar o clima quente e árido, os fogos, a fome e os desastres naturais que por aí vêm se não invertermos este caminho de matar o planeta. Que os moçambicanos me perdoem, que os meus filhos e netos me perdoem, que não há dinheiro que eu possa pagar agora que lhes facilite a vida depois.

Ouvir as palavras

Hoje de manhã, enquanto tomava banho ao som do "Telemóveis" e debatia com o meu marido, que estava a lavar os dentes, a poesia e o Conan (em quem estou viciada, já estava antes e ultimamente piorei da maleita!), sai-lhe pela boca, entre pasta de dentes e água bochechada, a melhor definição de poesia de sempre "quando leio um texto em prosa eu entendo as palavras que estão escritas, mas quando leio poesia eu ouço as palavras na minha cabeça".

E bom, como diria o meu filho, a vida é isto!

Passar por elas

Ao longo da minha vida, aqui e ali, quer profissionalmente quer a nível pessoal, tenho ouvido uns "dizes isso porque não passaste por elas!"

Ora, tendo eu "passado por elas" em muitos desses casos ponho-me a pensar se ter tido dificuldades e as ter ultrapassado me faz ter menos empatia por quem as está a ter sem as conseguir resolver. E tenho chegado à conclusão que sim! Que eu consigo ter mais compreensão por quem está a bater com a cabeça na parede ao passar por situações difíceis que me são estranhas do que por aquelas que me são familiares. Ainda não descobri é que isto diz de mim!

Modas

Sempre achei isto das modas uma coisa desconexa. É útil para identificar épocas e culturas, mas acho que se um alienígena racional aterrasse aqui na Terra ía achar tudo uma grande parvoíce. Hoje fico bonita é de cabelo comprido, amanhã pareço uma parola. Ontem umas calças apertadas é que me realçavam as curvas, hoje fazem-me gorda, etc etc etc. Se a humanidade muda de gostos com tanta facilidade, como podemos realmente gostar de algo ou alguém?

Claro que deve ser tudo algo mais complexo. Arranjamo-nos para atrair, para pertencer ao grupo e para mostrar poder. E o poder não passa de moda! Se a minha trisavó cobria o rosto para não queimar a tez branca de leite que estava na moda era para não se confundir com as camponesas que andavam ao sol, de sol a sol. Se hoje queres mostrar o bronzeado é porque tiveste dinheiro para umas feriazinhas na praia (ou um solário). Se a minha bisavó se orgulhava da carne que lhe cobria as curvas era porque não passava fome como quem andava com os ossos à mostra. Se hoje queres mostrar a barriga lisinha é porque tens tempo e dinheiro para ginásios e exercícios (principalmente tempo!). E essa moda de andar com unhas que mais parecem as garras do wolverine? Só se for para mostrar que não se trabalha! Porque não acredito que alguém consiga trabalhar com rapidez e diligência com umas unhas daqueles tamanho.

Ou talvez não! Talvez esta ansia de termos uma carteira Gucci que custa mais que o ordenado mínimo nacional e que há 30 anos atrás na feira da terriola eu desprezaria por ser foleira até mais não, é perfeitamente justificável! Talvez. Lembro a minha avó, que quando estavam na moda as calças rasgadas (isto da moda é tão cíclico que até enjoa) me dizia que no tempo dela a minha roupa não serviria nem para um mendigo. Eu na altura ria...e hoje continuo a rir!

Faltar-me-à provavelmente sal... ou chá...ou melhor infusão...

Destaques do Sapo Blogs

Na sexta-feira o meu post sobre a greve dos enfermeiros foi destacado pelo Sapo. Antes de mais cumpre agradecer a quem lhe achou  interesse para o fazer. Ponho-me muitas vezes a imaginar quem estará por detrás destas escolhas, se há alguém a ler todos os post (grande seca!), se é sempre a mesma pessoa ou se vai rodando, se cada um na equipe vai dando uma sugestão aleatoriamente, ... Um dia poderiam fazer um "Como eu destaco" em vez dos "Como eu blogo". Ou talvez não! Talvez seja melhor não personalizar a coisa (!). De qualquer das formas queria aqui afirmar que considero que fazem um bom trabalho. Sei que tentam dar um empurrãozinho sempre que alguém começa na blogosfera e tentam fazer o contraditório em temas polémicos (vejo muitas vezes posts com opiniões contrárias destacados uns ao lado dos outros). Talvez seja o mínimo exigível a um trabalho editorial (que é o que aqui é feito), mas os mínimos ultimamente andam muito em baixo e é de louvar uma equipe interessada e atenta.

Já tive 3 posts meus destacados, o que é uma enormidade para alguém que escreve de si para si tentando não chamar muita atenção. A primeira vez que isso aconteceu (o tal empurrãozinho dado pela equipe do Sapo Blogs) fiquei terrivelmente assustada porque não era minha intenção ter tanta gente a ler o que eu escrevia. Pensei fechar o blogue e só não o fiz porque já tinha fechado outros noutras plataformas e tinha-me decidido pelo sapo porque era português. A segunda vez que fui destacada foi um presente maravilhoso do Sapo porque calhou numa altura em que estava emocionalmente muito em baixo, com problemas atrás de problemas, e foi um clique para eu virar a página e desvalorizar o que não tem valor. Esta última vez foi um processo de aprendizagem muito interessante. Sempre tive muito respeito e admiração pelos políticos, jornalistas e demais pessoas que se expôem e expôem as suas opiniões ao público em geral, sujeitando-se à incompreensão e por vezes ofensa em praça pública. Não que não goste de uma boa discussão política entre amigos e/ou conhecidos, gosto. Gosto de tentar fazer valer o meu ponto de vista, de ouvir os outros, de falar mais alto, de os interromper, e no fim de me despedir com dois beijinhos. Mas sempre achei que se me bombardeassem com comentários e mais comentários, que eu iria ficar a matutar no assunto e passaria umas noites sem dormir. Afinal não! Dormi bem. Afinal foi como tudo na minha vida: diziam-me que o ciclo é que ía ser ifícil, que o liceu é que era a sério, que na faculdade não se brincava e que trabalhar doía. Mas nunca foi bem assim. A vida tem muitas difículdade, mas dar passos em frente nunca foi uma delas. Voltando aos comentários gostei de saber a opinião dos outros. Gostei que tivessem sabido a minha. Espero que tenha servido para alguma coisa. Para mim serviu para refletir mais uma vez no que está a acontecer. E mantive a minha opinião. Direitos há muitos nesta sociedade em que vivemos, o direito à vida, o direito à saúde, o direito à educação, o direito à liberdade, o direito à segurança, o direito ao trabalho, o direito à greve, ... por vezes os direitos de uns sobrepõem-se aos direitos de outros. Se eu matar alguém, o meu direito à liberdade vale menos que o direito à vida de quem eu matei. Neste caso acho que o direito à saúde e à vida dos doentes vale mais do que o direito ao trabalho bem remunerado dos grevistas.

Agora vou dar uma pausa. Este blog foi criado para eu desabafar e mandar umas postas de pescada sem chatear ninguém. Se imaginarmos que estamos no meio do monte, eu estou a gritar para as pedras. De vez em quando alguém me ouve e grita de lá também. Isso é bom e faz-me sentir que não estou sozinha, mas desta vez parece que me deparei com um acampamento de escuteiros de megafone na mão e é melhor deixá-lo seguir caminho. Abraços para todos.

Enfermeiros

Ando com raiva de mim, porque com a idade ando a ficar reacionária, e vejo-me espantada com vontade de defender os liberais e liberalizar Portugal inteiro, o que é contrário ao meu interior que é comunista. Principalmente por causa das greves. Já me chateavam as dos professores, as dos transportes, as dos funcionários, estas, aquelas e mais aqueloutras, chateava-me que a escola funcione quando há greve dos professores mas feche quando há greve dos funcionários, chateava-me que o centro de saúde funcione quando há greve dos médicos, mas feche quando há greve da secretaria, chateava-me que o Metro seja dado à exploração privada simplesmente para evitar as greves, chateava-me conhecer professores que andaram anos a tentar entrar no público, porque o salário era melhor e o horário também, e agora que o conseguiram fazem greve por isto e aquilo, chateavam-me coisa que até me cansa escrevê-las, e agora chateia-me esta greve dos enfermeiros. O dinheiro não se inventa, quando o estado fica sem dinheiro pagam todos, e eu fartei-me de pagar a crise. Ainda a pago. E tudo me chateia porque não sendo eu sindicalista, cheguei a ser conhecida como tal, andava sempre informada e informava meio mundo sobre os direitos dos trabalhadores e sempre achei o direito à greve uma conquista muito importante para a sociedade.

Mas claro que este exacerbar de raivinha tem um motivo concreto. É ter tido uma operação marcada para novembro que foi desmarcada por causa da greve e nem sinal à vista de quando a farei. É a minha mãe businar-me nos ouvidos que eu devia ir a um hospital privado porque tenho seguro e que se fôr preciso ela paga-me a operação, mas eu sou uma teimosa defensora do SNS e corto-lhe a conversa. É, além disso, o meu médico dizer-me que sou um caso de risco e que não me devo arriscar no privado e que se eu entrar em crise não há problema (!) porque operam-me de urgência, e nas urgências não há greve. É eu saber que a médica que me ia operar também o faz no privado, onde aposto que nunca fez uma greve.

E depois ponho-me a pensar como posso pensar nisto se eu acredito que todos deviamos ter remunerações equivalentes e que é uma vergonha termos um país em que o gestor ganha centenas de vezes mais que os trabalhadores.

Mas a verdade é que algumas greves são um dos motivos de haver alguma injustiça salarial neste país, porque nem todos trabalham em sectores em que uma greve afecta o quotidioano dos outros, e nunca vi um grevista a pedir melhores condições para todos, só pedem para si mesmos. Não se compreende que professores e funcionários, médicos e enfermeiros façam greve cada um a puxar pelo seu. Gostava era de ver professores a fazerem greve porque acham que os funcionários ganham pouco, ou enfermeiros em luta pelos direitos dos médicos. Isso sim! Agora fazerem greve num país capitalista com imensos hospitais privados não tem muita lógica. Se estão insatisfeitos que se mudem. Acredito que os hospitais privados estejam a ter trabalho extra e que lhes faça falta um par de mãos a mais.

Bom, agora que já escrevi, já me passou parte da raiva. E pode ser que com o fim-de-semana volte a mim em algumas coisas.

Mais ou menos...coisas

Tenho andado irritada e ocupada, o que é bom, porque não tendo tempo para me irritar passo menos mal. Mas ontem a minha mãe veio-me falar da história de não sei quem que gostava de não sei quem mais e que afinal era uma não sei quem menos. Não me irrita o caso em si, irrita-me que isto tenha dado uma polémica nacional com direito a três episódios em horário nobre. Não sei se foi por ter sido uma mulher a enganar um homem, se foi por envolver facebooks e companhia, mas ninguém desperdiça nem dez minutos de horário nobre para contar as histórias dos homens que arranjam namoradas sem lhes contar que têm mulher e filhos e outras cenas banais como essa que muitas vezes envolvem crimes de carteira e sangue. Mas pelos vistos, agora, causar danos virtuais é crime! A sociedade anda tola (ou sempre andou) e assisto impávida a um crescente moralismo hipócrita de hordas de gente sem defeitos que nunca fugiu aos impostos nem se baldou à escola e que vota nos Trumps e Bolsonaros deste mundo. Gente capaz de trucidar qualquer um só porque está em curso um linchamento, rezando para que nunca lhes descubram os próprios podres, as mentiras e o mal que fizeram aos outros. Pelo menos que não o descubram em horário nobre de televisão.

Mas depois acalmo-me. O mundo roda conforme tem de rodar. A humanidade é um ser vivo que incha e desincha, que intercala períodos de liberdade com opressão, sempre foi assim e sempre será. Hoje a moda é apontar o dedo, amanhã será desafiar, roda e gira, gira e roda, o importante é estares na moda.

Putos

Hoje vinha no metro a caminho do escritório e estava um puto à minha frente a falar ao telemóvel com a namorada. Não era um puto daqueles de quase trinta anos e mania que o mundo está a um passo deles, era mesmo um puto puto com os seus quinze anos a falar de aulas e stôras. No meio daquela conversa sai-se com esta "hoje em dia os putos já não sabem falar português, é tipo, só falam inglês, é tipo, o meu sobrinho de 3 anos só diz o.k. e help e diz os números em inglês melhor que eu, é tipo por isso que há más notas a português".

Ora, afinal a humanidade está salva e os velhos do restelo como eu nunca acabarão, ou tipo isso.

Natal

Estranhamente sinto que o Natal tem sido mais quente do que era na minha infância. Não é que tivesse tido maus natais quando era pequena, mas talvez por agora passar parte do meu natal na cozinha sinta mais os calores do forno e os vapores do fogão! E as pequenas tradições que vou magicando e cozinhando aqui e ali vão-me aquecendo. Mas o tempo vai passando, e numa das festas desta temporada, um tio relembrava os natais em que me vesti de mãe natal com o mesmo tom em que recordava as suas aventuras de infância. Parece que foi ontem e afinal já fiz recordações dignas de contos de natal!