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Ri-te Rita

que a vida não rima

Ri-te Rita

que a vida não rima

Natal

Estranhamente sinto que o Natal tem sido mais quente do que era na minha infância. Não é que tivesse tido maus natais quando era pequena, mas talvez por agora passar parte do meu natal na cozinha sinta mais os calores do forno e os vapores do fogão! E as pequenas tradições que vou magicando e cozinhando aqui e ali vão-me aquecendo. Mas o tempo vai passando, e numa das festas desta temporada, um tio relembrava os natais em que me vesti de mãe natal com o mesmo tom em que recordava as suas aventuras de infância. Parece que foi ontem e afinal já fiz recordações dignas de contos de natal!

Coisas que leio

Às vezes, em vez de trabalhar, ponho-me para aqui a ler coisas. Shame on me! Invariavelmente, se passo muito tempo a ler coisas na net, acabo por me chatear porque tenho o triste hábito de ir ver como andam pessoas que sofrem de soberba atroz. Talvez porque a maioria das vezes a soberba se faça acompanhar de solidão, ou porque uma causa a outra, ou porque a outra causa a uma. E bom, a solidão leva à reflexão e a um certo nível de introspecção que me agrada ler e que apela ao século XIX que há em mim. Mas, e repetindo-me, invariavelmente acabo por me chatear com a soberba dos solitários, o que é remédio santo para voltar ao trabalho!

Balanço 2018

O balanço é morno, o que na minha linguagem quer dizer bom. Já passei demasiado tempo a olhar para fotos tiradas em dias normais, chorando pelo que na altura era tão corriqueiro, para saber que devo entesourar todos estes anos mornos de felicidade comum. Um ano de 2019 cheio de coisinhas é o meu desejo para o ano que vem.

Egoísmo e prazer

Descobri no outro dia que o cérebro tem uma região onde mora o amor maternal, sempre que (p.ex.) os nossos filhos nos abraçam é libertada dopamina num conjunto de neurónios e estes sentem prazer (não será assim ipsis verbis mas será algo do género). Ora, não é novidade que o que somos possa ser dissecado e explicado pelas neurociências e que o que chamamos de personalidade será apenas um equilíbrio/desiquilíbrio químico, mas esta explicação para o amor maternal (o amor mais puro e perene) chocou-me. Afinal o meu amor pelos meus filhos não é mais que a busca egoísta pelo prazer nas minhas células. E afinal, os homens bons, altruístas e generosos não são mais que seres em cujas cabeças as células estão viciadas em dopamina. Será então todo o amor um vício egoista pelo prazer! É por estas e por outras que quando penso nestas coisas desato-me a rir, libertando assim dopamina noutro conjunto de células destrambelhadas!

Bom ano novo! ou velho!

Temos tantas faces e tantos disfarces que sempre achei extraordinário que alguém julgue conhecer-se a si mesmo, quanto mais aos outros! Se sou pragmática, sonhadora, ignorante, depressiva, boa, racional, melancólica, mandona, inteligente, inexperiente, obtusa, maldosa, doida, líder, tímida, alegre, e tantos outros adjetivos, se o sou às vezes e outras vezes não, como posso dizer que me conheço. E se somos todos assim, em que se traduz a nossa soma? A mesma sociedade que mata também cura, a que constrói também destrói, porque somos todos somas de eu e tu, de tu e ele, e esse nós é tão diferente como igual.

O próximo ano será tão distinto deste como o anterior o foi e sempre assim será. E isso é bom e mau. Ou hoje mau e amanhã bom. 

Nick Drake

Há episódios da nossa vida, absolutamente insignificantes e corriqueiros, que nos marcam para sempre e dos quais recordamos o momento, o pensamento e a emoção sem uma razão maior. Foi assim quando ouvi pela primeira vez Nick Drake. Recordo perfeitamente a noite em que deitada na cama a navegar no you tube ouvi uma música dele, e depois outra e depois outra atrás de outra. Talento bruto e puro. Depois descobri o que era óbvio, que ele era fonte de inspiração para muitos dos músicos que eu sempre tinha ouvido. Teve uma vida curta com aparente insucesso, mas passados estes anos todos eu, que já nasci depois dele ter morrido, num outro país, a falar outra língua, continuo a escutá-lo! A vida é tão fabulosa que por vezes derrota a morte.

Hábitos a desplastificar

Quando andava na faculdade ainda não se fazia reciclagem como hoje, mas já havia vidrões (uns para o vidro verde e outros para vidros de outras cores). Só que como estavam longe e a preguiça por esses tempo era abundante, um dia coloquei umas garrafas e uns vidros partidos no lixo comum. À noite, estava eu já deitada e a tentar dormir, ouvi os lixeiros a vocifrarem contra os filhos da mãe que tinham deitado vidro no lixo. A filha da mãe era eu, e embora me lembre de na altura também vocifrar mentalmente contra eles, a verdade é que nunca mais esqueci a asneira que fiz. Hoje deitar um vidro no lixo comum é para mim o mesmo que não tomar banho ou não lavar os dentes, sinto-me suja se o fizer.

Ultimamente tenho andado a tentar desplastificar. Nada muito drástico porque continuo preguiçosa! Mas deixei de comprar garrafões de água e comprei uma caneca com filtro, deixei de comprar leite achocolatado e sumos em pacotinhos para os miúdos levarem para a escola e agora levam o leite e o sumo numa garrafa reutilizável, quando vou ao supermercado opto por comprar produtos embalados em cartão e por aí adiante...

Ontem fui a uma festa em casa de uns amigos e os pratos, copos e talheres eram de plástico descartável. Não é que eu nunca o tenha usado, mas senti-me mal por isso e senti-me suja ao deitá-los fora.

Momentos

Ontem o meu filho perguntou-me qual foi o melhor momento da minha vida. Eu pensei um bocado, dei-lhe um beijinho, e menti. Hoje perguntou-me qual foi o pior momento da minha vida. Eu pensei um bocado, dei-lhe um beijinho, e menti. E assim se cortam os altos e baixos da nossa vida para a tornar apresentável.

Resumo

Há uns dias, e a propósito de uma reunião de colegas de liceu, alguém que eu já não via há décadas perguntou-me por mensagem o que era feito de mim. Respondi qual a minha profissão, qual a terra onde vivo, que era casada e quantos filhos tinha. Depois fiquei a pensar que se pode resumir a vida numa linha. Depois fiquei a pensar o que diz de nós a ordem em que pomos a informação nessa linha. Depois fiquei a pensar que se perco tempo a pensar nisto, é porque ando com pouca coisa em que pensar!